Mirrors


Às vezes fico parado à frente do espelho, e olho profundamente para os olhos do rapaz que está do outro lado. Faço logo uma cara esquisita, como sempre, e rio-me por dentro um bocadinho. De seguida, aproximo ainda mais a cara do espelho, e consigo ver para além da alma do jovem. E paro. Olho para mim e já faço uma cara que os adultos fazem. Aquela que os pais fazem quando perguntamos se podemos ir passar uma semana fora de casa. Essa mesmo. E fico desiludido. Fico ali, estagnado no tempo, a mirá-lo de alto abaixo, e apoio as mãos na pia e suspiro. Que foi feito de mim? De onde apareceram estas marcas de cansaço no rosto, e onde foram parar aquelas covinhas que fazia quando sorria? Dos vinte degraus que são a minha vida, devem estar no menos cinco. E consigo voltar a falar. A balbuciar algo entre-dentes (a primeira coisa que me passa pela cabeça) e questiono-me novamente. "Quem és tu, Mauro?". Sempre pensei que as marcas da vida e do sofrimento se sentissem com um grande poder, e que as lágrimas caíssem desvairadas pela face abaixo, logo a partir do momento em que olhamos a pessoa que nos fita na outra dimensão. Mas não. Largamos um sorriso, finalmente, e aí é que chego à conclusão que não sou Mauro nenhum... Eu sou outrem que olha a vida de outra maneira, que arranja forças onde não as tem, e que olha a vida como uma nova oportunidade de remediar tudo o que nos destruiu no passado.

E são assim as minha idas à casa de banho.

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