Com amor, Tom.








Nova Iorque, Manhattan, 4 de Fevereiro de 1981

20:04


    “Querida Catamy, 

    Oh!, se me lembro do dia 2 de Fevereiro!... Como é que eu podia esquecer um 

dia tão mágico, tão involvente, o melhor dia da minha vida? Lembro-me de tudo como 

se fosse ontem, e não há dia em que não pense nos nossos corpos nervosos, mas tão 

sedentos de amor. E para além de sentir uma apatia tão forte, sinto saudade e remorsos 

da facilidade em que esse momento fugiu num comboio. Prometeste-me que estarias 

sempre aqui comigo, que quando as minhas lágrimas precisassem de solo firme estarias 

lá, e o oceano que me afoga aos poucos parece não encontrar terra. 

    Não, o meu amor por ti não vira raiva. 

    Mas às vezes a dor levanta ondas deste oceano que me destroem por dentro, e 

por mais que eu quero abandonar esta tempestade, ela não me larga. As tuas palavras 

não servem neste momento, porque um dia disseste que o nosso amor superaria tudo, 

até as piores tempestades, mas a realidade é que se eu não tenho amor, como sou capaz 

de sobreviver? Tu já não estás aqui, e esta solidão está a dar cabo de mim, a comer-me 

aos poucos a cada dia que passa. O amor que fizemos nesse dia… Foi a única coisa que 

ainda mantém um amante hoje em dia, e acho curioso como é que tudo isso fugiu para 

quilómetros longe de mim, numa questão de segundos. 

    Amo-te, Catamy, como nunca amei ninguém, mas sei que um amor como o 

nosso amor pode divagar nas partículas do tempo tão facilmente, por ser tão forte. 

    Será que a força neste momento tem alguma definição? 

    Será que tem alguma força? 

    É extenuante não poder fazer nada quanto a nós, apenas porque o destino assim 

o quis. Este filho da puta que separa dois amantes que nunca se contentam com tanto, 

porque é isso que ainda os mantém vivos. 

    Dia 2. Dia 2. Dia2. 

    O dia “D”. 

    Sei que nesse dia foste falar com a editora, e quando chegaste até mim fingiste 

um sorriso, e disseste que tinham aceite o teu livro. Como eu te conheço, meu 

moranguinho… A tua arma mais forte é esconderes e evitares dizer aquilo que me 

magoaria, assim como fizeste com a carta do António. Mas nessa altura não quis insitir 

mais, e deixei que tu decidisses qual seria o nosso futuro mais próximo nesses dias. Tu 

merecias. Uma escritora tão talentosa como tudo, tão fogaz, merecia o mundo inteiro. E 

não estou a exagerar. Tu mereces tudo. E nesse crepúsculo estavas a desejar-me, a 

desejar prazer e um estado de paz, e foi quanto tudo aconteceu. Levei-te para o meu 

esconderijo preferido, para que pudéssemos disfrutrar dos nossos corpos até às horas 

que quiséssemos. Não te disse para onde íamos, e não acreditas na vontade que tive de 

falar pelos cotovelos nesse entardecer, porque por tanto sorrisos que davas ao nada, o 

meu coração derretia. 

    Quando chegámos, a morte passou por mim, e deixou-me os maiores dos seus 

arrepios a passar pela minha espinha. Tinha medo que não gostasses do que tinha 

preparado para nós, mas não me desiludiste. Como nunca me desiludes. 

    A vista para a cidade era linda, mas nunca superando-te, e o nervosismo 

começou a apoderar-se de mim. Tinha as duas beldades da minha vida à minha frente, e 

não conseguia evitar mas sorrir. 

    “O meu livro não foi aceite”, disseste. 

    “Eu sei.” 

    E silêncio e a cumplicidade invadiram a noite. 

    Invandiram-me as noites a partir daí. 

    Como é possível este sentimento de êxtase ter virado dor? 

    É a única coisa que tenho sentido, desde que foste embora, e por mais incrível 

que te pareça, tenho tentado esquecido essa noite nas últimas semanas. 

    PS.: Mais uma vez, a minha mãe telefona-te a ti, e eu só sei das coisas depois… 

    Típico! 

    Não te esqueças que te vejo em todo o lado. 

Com amor, 

Tom.”

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