Ironia Metaforizada

 Eu sei que sou eu o tal que tem os olhos que evitas para não te perderes; eu sei que sou o teu pecado, e todos adoramos ser pecadores de vez em quando, principalmente tu. E se eu fosse o uso, tu serias o meu abuso, e se os meus olhos fossem na realidade a violência das ondas do mar, afogavas-te no nosso prazer proibido, porque quem se naufraga com a esperança de abandonar a ilha no dia seguinte nunca chegou a sair de terra. E ironicamente as tuas palavras que eu mandava para o sítio mais escuro do meu coração, eram mergulhadas no sal que as mascaravam de açúcar.
 Não me venhas com doçuras fingidas, não tentes amenizar o fogo que se alastra aos longo dos anos se sabes que ele foi posto por ti, quando eu próprio era um mergulhador falhado no oceano dos teus olhos. Mas assim como a cara e a coroa da moeda destroem infraestruturas em segundos, a minha ingenuidade foi destruída pelas tuas palavras que agora já não flutuam mais em mim; agora trespassam a minha razão e os anos todos que passaram.
 Desiste de tornar isto num jogo empatado se sabes que eu saio sempre a ganhar. Um tango que agora é dançado só por um. Um dançarino calejado e com nódoas pretas, é o que eu sou.
 Mas por mais incrível que pareça, as vezes que dançávamos os dois, com sorrisos patetas nos lábios, não passaram de meros ensaios; ensaios esses que me prepararam para uma fraude que sempre tu foste.
 Desiste.
 Afoga-te em mim, e fuma-me a alma. Dança-me outra vez com os olhos, como se fosse a última vez.

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