Uma carta


        Antes de me ir deitar, deixa-me que fale um pouco contigo, porque sei que desta forma me vais ouvir, e pode ser que penses um bocado em mim e em tudo o que se está a pssar comigo neste momento. Antes que me julgues, ou que compares os teus problemas com os meus, dos quais eu tenho a perfeita consciência que te magoam o coração, o que tu escondes com um estado de felicidade e um sorriso ilusórios, lê-me. Depois tira as tuas conclusões.
A adolescência é uma fase da vida das mais complicadas que um ser humano alguma vez tem de enfrentar. É nesta altura que descobrimos quem realmente somos, o que fazemos neste mundo, e é quando fazemos planos espontâneos e momentâneos relativos ao nosso futuro, planos estes que rapidamente desvanecem, quando tomamos o gostinho da realidade do mundo. É quando o nosso círculo de amigos se vinca e destaca, quando desdenhamos a família durante uns anos, porque pensamos que já somos adultos o suficiente para tomarmos conta de nós próprios, com apenas dezasseis anos. É quando afogamos as nossas mágoas em álcool, numa festa duma discoteca qualquer, para no fim podermos dizer o quão divertido foi estar no meio de uma multidão gigante, e o quão difícil é chegarmos à casa de banho antes que nos mijemos todos, no meio de tantas cervejas e bebidas das quais não fazemos a mínima do nome. É quando fazemos experiências novas, mesmo sabendo que nos prejudiquem, mas hey. Somos novos, estamo-nos nas tintas se nos fazem mal. Temos muitos anos para viver, e vamos aproveitar enquanto estamos vivos.
E é quando aprendemos o que é o amor.
Irónico, não é?
Como é que é possível um adolescente querer tanto amar, se o amor é a mãe das dores? Fácil: nós não queremos subir esta montanha sozinhos, precisamos de alguém que nos motive, e que nos diga as palavras certas que nos incentivem a escalar ainda mais, quando estamos prestes a desistir.
Mesmo que nos magoemos no fim. Porque é com dezasseis anos que acreditamos no “para sempre”, porque é com a pessoa de quem amamos que queremos envelhecer, quando no fim, tudo desmorona. E aí, o abraço quentinho da nossa mãe já tem significado. Na realidade somos todos crianças, mas fomos lançados para o mundo dos adultos tão violentamente, que nem tempo tivemos de crescer, e de nos prepararmos para o que aí se avizinha.
(...)

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