Until The End

 
  Ainda estamos perdidos nos sonhos vespertinos e mergulhados nos pesadelos nocturnos. Ainda voamos, quais anjos com asas gastas, pelas memórias construídas em vão.
 Magoei-me outra vez, hoje. Foste a primeira pessoa em quem pensei. É engraçado a dor fazer-me lembrar de ti, mas talvez seja o destino. O destino... Nós pensávamos que o destino existia, saltávamos montanhas quando nos beijávamos, quando te puxava entre beijos ofegantes para a cama antes de dormir.
 "Eu amo-te.", dizias suavemente, com a garganta dorida e vermelha da vida, enquanto me abraçavas as costas suadas.
 E tu sabias que eu amava muitas coisas, mas naquele momento a única coisa pela qual o meu coração ainda batia fortemente eram os teus sorrisos, os teus lábios, os teus braços, eras tu. Não chegavam palavras, arranhões e mordidelas. Para ser sincero, nem a saudade, nem as lágrimas potenciais da nossa vida chegavam. Chegava apenas o facto de estares ao pé de mim, deitada ao meu lado; o teu calor, o teu perfume e a maneira como te movias quando já mergulhada no sono profundo, que partilhávamos noite fora, até ao fim dos nossos dias.
 Até que esses dias fossem monótonos e escuros, algo que não fazia parte dos nossos planos. Até que alguém se engasgasse a dizer "Eu amo-te.", até que o toque se torne frio, até que o nosso coração pare de correr. Pelo menos era o que me dizias... E vivia atormentado. Sobrevivia nunca chegando a perceber se a altura em que a vida se revirava violentamente chegava, se tu abrias as tuas asas antes gastas, agora curadas pelo poder do amor, e voavas pelo frio da noite. A nossa vida passava-me pelos olhos. Tu passavas-me pelo corpo deixando uma brisa que me congelava. E era só o calor da tua mão que me aconchegava, que me relaxava, que me sossegava. E era suficiente.

(...)

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